A palavra "medíocre" não significa incompetência. Sua origem remete ao que está no meio, ao que se acomoda na média. Talvez não exista definição melhor para grande parte da indústria audiovisual brasileira.
A mediocridade do setor não está na falta de talento. O Brasil produz roteiristas, diretores, fotógrafos, montadores e criadores capazes de competir internacionalmente. O problema é que o sistema raramente recompensa excelência, inovação ou risco. Ele recompensa pertencimento.
O caso de Boninho é ilustrativo não porque ele seja incompetente, mas porque demonstra um fenômeno recorrente da televisão brasileira: o peso do sobrenome frequentemente se transforma em ativo profissional. Mesmo acumulando projetos que não atingiram os resultados esperados, a capacidade de atrair investimentos e novos contratos permanece intacta.
Em qualquer outro ambiente altamente competitivo, uma sequência de fracassos obrigaria uma profunda revisão de métodos. No audiovisual brasileiro, muitas vezes ela apenas gera uma nova oportunidade.
O problema não é Boninho.
O problema é o sistema.
Famílias controlam grupos de comunicação há décadas como extensões de seus próprios egos. Empresas que deveriam funcionar como organizações orientadas para inovação operam como feudos corporativos. O sobrenome vale mais que a ideia. A proximidade vale mais que o resultado.
E talvez o exemplo mais evidente dessa mediocridade esteja na relação com o streaming.
Durante anos, executivos brasileiros venderam a narrativa de que o streaming representava uma ruptura radical com a televisão. A promessa era de uma revolução. Um novo paradigma. Uma nova linguagem.
Agora o próprio mercado descobre algo que a televisão tradicional já sabia há décadas: audiência é construída por hábito, recorrência, eventos ao vivo, comunidade e programação contínua. O streaming está redescobrindo fundamentos históricos da televisão, não os inventando.
Mas a mediocridade se revela de forma ainda mais profunda.
Ela aparece quando empresários de comunicação apresentam como "ideia original" conceitos que circulam livremente na internet há anos.
Ela aparece quando formatos internacionais são copiados sem adaptação criativa relevante.
Ela aparece quando profissionais confundem reprodução com criação.
Uma indústria criativa deixa de ser criativa no momento em que passa a acreditar que copiar tendências é o mesmo que gerar tendências.
É acreditar que uma ideia retirada da internet se transforma em original apenas porque foi colocada na televisão.
É investir milhões para reproduzir aquilo que já existe, enquanto os verdadeiros criadores permanecem fora da sala onde as decisões são tomadas.
O audiovisual brasileiro não sofre pela falta de talento.
Sofre pelo excesso de conforto.