A televisão comercial aberta deve mesclar sua vocação que é; ganhar dinheiro sem perder de vista a preocupação em oferecer um bom serviço público. Ela tem que usar o grande poder para fins econômicos e sociais.
Pouco tem sido feito para preparar os telespectadores e principalmente as crianças que assistem em média 20 a 25 horas de televisão por semana.
Afinal, a televisão é uma concessão pública, e os empresários deste setor, e principalmente o estado têm responsabilidade com a cultura, educação de todos os seus cidadãos, mas sobre tudo em relação às crianças, que tem sido subserviente para o big business, que por muitas vezes deixa o lado mercantilista tomar o controle da política e do conteúdo editorial da programação de algumas das emissoras de televisão aberta no Brasil.
Pesquisa do instituto Research International, que ouviu 4.600 pessoas de 18 a 54 anos na Grande São Paulo em agosto 2002 diz que 46% dos entrevistados a programação da televisão piorou nos últimos três anos e vai piorar ainda mais nos próximos 3 anos.
Os dispositivos de controle de qualidade da televisão são frágeis, subjetivos e normalmente confundidos com censura, devemos então preparar aqueles que assistem (telespectadores) a entenderem esta mídia, e a se defenderem das influências alienantes da televisão, e saberem ao mesmo tempo, aproveitar seus benefícios, que são inúmeros!
Estudo feito pela Unesco constata que um norte-americano, ao atingir os 18 anos, terá presenciado cerca de 18 mil assassinatos representados na televisão em toda sua vida. No Brasil, a situação não é tão diferente, a violência começa a ser exposta justamente em programas considerados infantis; os desenhos animados. Um mapeamento realizado pela ONU em seis emissoras abertas, em 1998, já detectava que no período de uma semana 1.432 crimes eram cometidos por heróis e vilões da garotada na TV.
Uma alternativa viável, é adotar o conceito chamado de "educação da comunicação", já praticado há cerca de 30 anos em países como Estados Unidos e Inglaterra, onde se desenvolve em crianças e adolescentes uma consciência crítica diante do que vêem na TV.
De tempos em tempos os críticos elegem um segmento da mídia para focar suas críticas, isto tem feito com que os vários veículos de comunicação de massa tenham assumido maior responsabilidade e profissionalização, melhorando sua relação com o público. Atualmente a televisão como veiculo mais poderoso da mídia, está no foco das críticas. Na verdade os críticos atuais estão batendo na mesma tecla que seus colegas do passado, que ajudaram a desenvolver uma ética e linguagens para a impressa escrita, por exemplo: em 1591, uma crítica publicada na França falava sobre os jornais da época dizendo; “Até um gato na sarjeta pode se transformar em um cronista de jornal, tal é a baixa qualidade dos artigos impressos nos periódicos atualmente”. Em 1592 foi publicado uma outra crítica que dizia; “A mídia tem dado mais atenção ao superficial e ao sensacionalismo em suas coberturas dos acontecimentos humanos, do que a noticia ou entretenimento com conteúdo significativo”. Este texto de mais de 410 anos lembra bastante as críticas atuais sobre a televisão atual.
Não devemos de esquecer que antes da era impressa o homem via o mundo com todos os seus sensos, tridimensionalmente, realístico. Através da impressão ele aprendeu a ver através dos seus olhos, da mente. A televisão é um passo para trás na cultura oral. É uma mera extensão dos olhos e ouvidos, e faz com que vejamos a realidade muito parecida como homem via antes de Gutenberg. Talvez é isto que quis dizer McLuhan quando disse que a televisão iria nos “retribalizar”.
Lembrando que levamos mais de 400 anos para aprender a ler um jornal da era moderna da comunicação de massa, e entender a diferença entre um artigo de uma noticia, aprender a diferenciar da opinião do dono do jornal, de uma noticia, ou ainda, um texto publicitário de um candidato político dentro de um artigo.
O uso das máquinas para a comunicação do homem é ainda muito recente, nós estamos apenas aprendendo a nos relacionar com elas. A primeira maquina que verdadeiramente começamos a nos relacionar para nos comunicarmos foi telefone, descoberto em 1876. A partir desta descoberta de Alexander Graham Bell, as máquinas passaram a fazer parte da comunicação humana.
Já a máquina televisiva é ainda mais recente, e no Brasil tem apenas um pouco mais de 50 anos. É pouco tempo para esperar que o público saiba decodificar todas as formas que são apresentadas suas mensagens. Nem se quer os profissionais que a fazem sabem ainda dominar todas suas técnicas, muito menos suas conseqüências.
Inclusive foi publicado no The Times - LONDRES – que uma pequena mas significativa tendência entre pais de classe média que estão pondo em prática a campanha "No TV" ("Nada de TV") - destinada a retirar as crianças da frente da TV alguns dias por semana.
Personalidades como Tom Cruise e Steven Spielberg, revelaram que estão restringindo o uso da TV para seus filhos em favor de entretenimentos tradicionais, como leitura de livros, esportes e até mesmo a conversação.
Um relatório recente da Fundação Kaiser Family, disse que as crianças que reduziram em algumas horas por semana sua assistência à TV apresentaram notáveis progressos na escola e nas relações sociais. Um porta-voz da Fundação observou: "A Constituição americana garante o direito de buscar a felicidade. Esta é a melhor receita para a felicidade sem necessidade de remédios que vimos há muitos anos."
Já no Brasil uma campanha para que as empresas não invistam em programas de baixa qualidade, tem atingindo poucos produtos, de baixa qualidade, já que eles são mantidos por empresas que não usam agências, ou ainda são programas auto-sustentáveis, ou seja, os proprietários de algumas emissoras têm produtos próprios e anunciam em sua própria emissora, por este motivo o boicote não atinge estes produtos.
A programação da televisão brasileira tem sido uma mescla de coisas boas e coisas ruins, alias é uma tendência no mundo todo. Produzir com qualidade custa caro, e o publico está sempre ávido por novos programas, e só existe uma maneira de se viabilizar tantas novas produções, mesclando programas caros e bem produzidos, com programas populares e mais baratos.
Um documentário bem produzido custa em media R$300 mil reais, já um programa de auditório ou um talk Show dispõe de uma verba entre R$15 a R$20 mil reais. E o pior é que estes programas baratos criam hábito, já que a sua maioria é semanal ou diário, enquanto o documentário é eventual.
Uma estratégia que vem sendo usado pelos canais como o Discovery Channel, é usar de um método de programação chamado de “umbrella”. Um exemplo deste tipo de programação é a “Semana do Tubarão”, onde são programados, diversos estilos de documentários, produzidos em diferentes datas, locais, com um mesmo tema, durante toda uma semana ou mês. Desta forma atrai o público que sabe que qualquer dia daquela determinada semana que ele sintonizar o canal ele irá assistir um documentário sobre um tema que ele já previamente se interessa
As televisões de maneira geral estão passando por um período onde o seu orçamento está desprotegido com sua receita em reais, sofrendo com a alta do dólar e da deterioração das condições econômicas do Brasil. Somando a este quadro geral preocupante, a maioria das emissoras tem um agravante ainda mais inquietante, é a sua administração, gerida de maneira ineficiente, vem ano a ano se afastando das metas e se aproximando cada vez mais das armadilhas bancárias e nos cortes do seu orçamento.
Basta ver a TV Globo, que opera no mesmo país e apesar de um ano difícil para o mercado publicitário fechou o primeiro semestre com 13% de crescimento nominal e projetou 11% para o período de janeiro a setembro.
Agora, o que mais me chama a atenção é o fato de que eles conseguiram diminuir os custos de produção de programas de entretenimento, que caíram 35% nos últimos quatro anos. Isto graças principalmente de uma política inédita de redução de gastos, implantada em 2001.
Em 1998, uma hora de produção de novelas, humorísticos e programas de auditório custava em média R$ 247 mil. Neste ano, esse valor baixou para R$ 161 mil. O custo da hora de produção de programas jornalísticos e esportivos baixou 23,8%, de R$ 122 mil em 1998 para R$ 93 mil em 2002.
Com esta política de redução de gastos em pratica, ela pode aumentar o número de horas de produção própria de entretenimento, que subiu de 1.705 em 1998 para 2.660 neste ano, conseguindo melhorar os resultados na audiência em relação a 2001, aumentando de 21 para 23 pontos sua média nacional diária até setembro de 2002.
Já o Sbt, tem tido problemas em relação à audiência que dá sinais de decadência, mesmo as várias tentativas em lançar novos produtos não tem conseguido manter o mesmo resultado de 2001, ou, os 9 pontos na média nacional.
Porém, está cada vez mais difícil manter o ritmo necessário de lançamentos de novos produtos, pois produzir no Sbt está cada vez mais caro.
Na minha avaliação, a administração de grande parte das emissoras brasileiras é a responsável pelos altos custos de produção, e as razões é o desperdício e a falta de preparo da mão-de-obra. Enquanto no mundo todo, a indústria da produção de conteúdo televisivo busca diminuir os custos e manter a qualidade através do preparo da sua mão-de-obra, no Brasil a televisão dá mais valor na idéia do que na realização, como se qualidade fosse antagônica a racionalidade dos custos.
Muitas vezes, isto impede que novos projetos sejam implantados com sucesso nestas áreas em razão da ignorância ou arrogância de determinados executivos e diretores em assuntos específicos. No Brasil a televisão ignora que para colocar uma empresa de comunicação de massa num patamar de competitividade que necessita estar atualmente, precisa de soluções específicas de qualidade e confiabilidade. É procedimento comum nas emissoras americanas e européias a contratação de profissionais e empresas de consultoria televisiva. Este double-check é de fundamental importância no planejamento e nas grandes decisões administrativas. Afinal, nós sabemos das limitações do staff da maioria das empresas de televisão no Brasil, e não podemos esperar que as soluções surjam apenas na base da intuição destas pessoas, experimentar na televisão é caro e os resultados não são confiáveis.
Por um outro lado o custo destes serviços de consultoria é apenas uma pequena fração do que hoje é gasto em salários e encargos dos vários diretores que estão praticamente sem função nestas empresas.